terça-feira, 23 de setembro de 2008

Flerte


Uma troca de olhares, a convivência, a proximidade
Aquela coisa de se dar, mas não se dar por inteiro
De se dar e manter o controle
“Aprecie com moderação...”

É só uma curtição.
Uma gaveta.
Ela abre e fecha na hora em que bem entende

Em momento algum passa pela cabeça pular dentro da gaveta
Ninguém é bobo
Todos sabem que aquilo é só uma gaveta
Uma curtição momentânea
Ninguém quer trocar a sua vida, sua história
Por uma gaveta, por um momento

Então você flerta...

Porque o flerte é só um parêntese
Tudo está sob controle

E pensa que controla mesmo...

Mas depois é controlado.
É controlado, mas acha que está controlando

Do nada, abre a gaveta sem querer abrir
E não tem capacidade de fechar na hora em que quer fechar

É o flerte...

Diante das pressões que nós vivemos, das possibilidades, das sombras dos nossos corações, dos nossos apetites, das nossas questões mal-resolvidas, a gente abre uma gaveta pra onde fugimos de vez em quando. E flertamos. Com pessoas, coisas, situações e oportunidades. Até o dia que não dá mais pra brecar. E quando não dá mais pra brecar, começamos a tentar explicar... Explicar o inexplicável...

Temos que manter nossos olhos sempre voltados para cima, olhando diretamente nos olhos daquele que nos ama, buscando a orientação divina daquele que prometeu estar sempre conosco.

Acredito que esse também possa ser um caminho para o coração que se perdeu em meio a um flerte, olhar para cima e seguir o caminho que traz de volta o coração para que ele seja restaurado e cativado novamente pelo amor do Pai.

Acho que é tempo de voltar...

Voltar os olhos a Deus.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Dor (en)contra a Vida

Bom, em razão do 5º comentário do último texto eis mais um... (não sei se quem escreve texto é porque tem pretexto, mas foi mais ou menos o que aconteceu aqui... rs)

Li um trecho pequeno de um livro hinduísta que ensinava a lidar com o sofrimento e a dor sem negá-los ou ignorá-los, mas elevando-se acima deles. Sua religião prega que se deve dizer às mais dolorosas experiências: “não vou deixar que você me machuque. Vou experimentar o que de pior possa acontecer e vou triunfar. Vou aprender a arte do desligamento e superar a dor”. Todos já vimos imagens de hinduístas andando sobre braseiros ou deitando em camas de prego. O que eles fazem com seus corpos é o que tentam fazer com suas almas: ensinar-lhes a não sentir dor.

Um amigo já me disse certa vez que a maneira de atravessar uma vida de tragédias e incertezas é aceitá-la e ceder a ela, em vez de lutar contra ela, da mesma forma pelo qual um lutador usa a força e o peso de seu adversário, contra ele, em lugar de tentar superá-lo. Também me disse que a forma para atravessar a vida sem sentir dor constante é diminuir as expectativas. Não esperando que a vida seja justa, não sofrerá o coração diante da injustiça.

Correto?

Há controvérsias...

Ouvi e li com respeito às opiniões declaradas acima. Mas fundamentalmente tive que discordar.

Primeiro
Creio que quando diminuímos nossas expectativas da vida para evitar a dor da desilusão, abandonamos uma parte da imagem de Deus em nós. Aceitar a injustiça porque ela sempre fez parte da sociedade é desistir facilmente. Certo, isso nos pouparia muita angústia e frustração – mas a que custo? Acho que é como o pai superprotetor que não deixa o filho andar de bicicleta porque pode cair e se machucar. Usar tal armadura nos protege de ferimentos, mas também impede que cresçamos.

Segundo
Se acreditamos que a vida é boa quando evitamos a dor, corremos o risco de não aprender tão bem a não sentir dor e, com isto, não sentir nada. – nem alegria, nem amor, nem esperança, nem espanto. Ficamos emocionalmente anestesiados. Aprendemos a viver toda a nossa vida dentro de estreitos limites emocionais, aceitando o fato de que teremos poucos instantes de alegria em troca da garantia de que também não teremos momentos ruins, de dor ou tristeza – apenas o eterno sentimento da monotonia, de um dia cinzento, que só é percebido depois de um longo tempo. Por causa do nosso medo da dor, dominamos com tal perfeição a arte do afastamento que mais nada consegue atingir nossas emoções. Nos afastamos dos amigos, das pessoas dos relacionamentos. Procuramos uma viagem, um cinema, uma saída que nos tire da rotina. Ou começamos a procurar adrenalina: dirigir depressa, voar de asa delta, praticar algum esporte radical, dizendo que “somente assim nos sentimos vivos”.
Colocamos a culpa naquilo que já vivemos ou nas pessoas com quem convivemos, e que a cura para isso é mudar de emprego, de parceiro, de bairro ou de vida, para que tudo se torne mais interessante. Às vezes a mudança pode até ser necessária mas, quase sempre, o problema está em nós mesmos. Por causa do nosso medo do sofrimento ou da desilusão, escolhemos uma outra vida, onde pensamos que não passaremos mais por isso. Construímos para nós mesmos um piso emocional, abaixo do qual não poderemos afundar, para termos a certeza de que nada nos poderá ferir ou deprimir, e um teto emocional, acima do qual não nos poderemos elevar, porque o risco de queda será grande demais. E nos perguntamos as vezes por que nos sentimos tão anestesiados.

Pra terminar, como citei no último texto, que acreditar em contos de fadas seria mais fácil, citarei um...
“A história do rapaz que queria aprender a ter medo”
É a história de um jovem, faça o que fizer, nunca sente medo. Ele se sente incompleto, sem a dimensão emocional do medo. Resolve então partir e se depara com aventuras arrepiantes, fantasmas e bruxas e dragões que cospem fogo, mas nunca consegue sentir um simples arrepio de medo. Em sua última aventura, consegue libertar um castelo de um encanto perverso e, como prova de gratidão, o rei lhe dá a mão de sua filha. O herói diz a princesa que, embora goste dela não tem certeza de que possa casar até que complete sua missão e aprenda a sentir medo. Na noite de núpcias (pelo menos essa é a versão contada para as crianças), a noiva arranca as cobertas de seu leito e atira nele um balde de água fria cheia de peixinhos. Ele grita: “Minha querida esposa! Agora eu sei o que é um arrepio!” – e se torna feliz. rs...

Você deve estar se perguntando: qual o sentido dessa história?
Acho que uma pessoa não está pronta para a vida adulta sejam quais forem suas realizações neste mundo, até que esteja emocionalmente madura e aberta para o sentimento. Nosso herói não consegue sentir amor ou alegria por não ser capaz de sentir susto e medo. Talvez ele seja o símbolo de todos nós que, em nossos esforços para evitar a dor, nos amortecemos contra todos os sentimentos e, ao contrário do herói do conto de fadas, não sabemos o que estamos perdendo.

domingo, 31 de agosto de 2008

Afeição e Paladar

Venho pensando diariamente na vida, em todo o sentido dela.
Venho pensando em meus sonhos que não se realizaram e nos que ainda estão por vir.
Venho pensando no real sentido da minha existência desde a essência da minha criação.
E também venho pensando no amor. No amor que me salvou, no amor para com o próximo, no amor pelo mundo que anda em trevas e no amor, aquele que é definido ser o amor de um homem para com sua mulher e vice-versa. E é deste último que tenho mais medo. Porque o vejo indefinido por sempre estar em constante mudança, em uma interminável reviravolta dentro de mim. Cheguei a um ponto de que tudo o que eu pensava sobre ele moveu-se alternadamente em sentidos opostos. Minhas idéias, deduções e certezas mudaram. Aquilo de que eu tinha tanta convicção hoje é relativo e talvez amanhã se torne uma mentira, ou, talvez não... Mas, o fato é que hoje o enxergo de outra maneira...
Não sei e não creio que alguém pode definir a vida a dois, homem e mulher, em um simples livro de regras e dizer que é somente isso ou aquilo... Também não quero entrar na discussão se ele é decisão/razão ou sentimento/emoção, já que a neurociência hoje tem comprovado que não existe razão que não seja comprometida afetivamente e nenhuma emoção que não seja inteligente.
O que estou querendo dizer é que experimentei desse amor. Experimentei, porém não sei defini-lo. Experimentei e o gosto ainda amarga e adoça minha boca.
Tenho aprendido (às vezes obrigado) que a manifestação desse amor ocorre no simples fato do relacionamento. Como resultado desse relacionamento surge uma unificação entre os dois seres. Essa unificação é também uma ligação, como se fosse um dentro do outro. E, da mesma forma que existe essa ligação por esse amor, existe também o acolher das decisões do outro na sua. Mesmo quando o outro não tem ciência dos acontecimentos da vida de um, sua vontade é manifestada. Pois quando se ama, os pensamentos, os sentimentos e os desejos estão direcionados a pessoa que se ama. Buscando sempre lhe agradar.
Portanto, hoje, somente hoje, posso dizer que quando existe amor, existe a presença da pessoa amada dentro do outro. Atuando nas decisões e ações do primeiro, pois eles não estão lado a lado, mas sim unidos.
E, o gosto que sinto é ainda o que permeia minhas atitudes através das minhas intenções. Não sei se perderei algum dia esse paladar, e é óbvio que prefiro a parte doce dessa sensação, mas sei que às vezes o sal também é bom. E, entre “aromas, cores e sabores”, vou tentando compreender e discernir para escolher o prato do dia. Aquele prato cujos ingredientes são mais ou menos; razão e coração, desejo e decepção, força e fraqueza com uma boa pitada de esperança. Não sei se vocês concordam, mas acredito que nessas horas seria mais fácil acreditar em contos de fadas, pois eles terminam sempre com o: "felizes para sempre."

terça-feira, 29 de julho de 2008

Relacionamento Fast-food


"Se Deus criou as coisas para usarmos, e as pessoas para amarmos, por que amamos as coisas e usamos as pessoas?" Bob Marley

Quando li essa frase pensei: “Bob Marley foi a pedra que clamou.”
Creio que estamos em meio a uma crise. A crise da pós-modernidade, ou alta-modernidade. Numa sociedade onde a obrigação primordial é a busca da “felicidade”, a maioria das pessoas vivem num sufocante desespero. As pessoas esqueceram, e na verdade, não sabem mais se realmente foram criadas com um propósito, e acabam vivendo como se a felicidade fosse um fim em si mesmo. Elas estão presas na alta-modernidade, em meio a uma globalização (que não é bem globalização) que estreitou as fronteiras do mundo, e, como resultado, estão escravizando e sendo escravizadas. A correria é tanta, que não sobra um tempo de qualidade para passar com um amigo, com a família, com o próximo. Abraços e felicitações são substituídos por cartões virtuais e scraps. O resultado é a insatisfação aparentemente sem motivo, um estado de espírito negativamente perturbado, e a monotonia da luta pela mera sobrevivência. Falta tempo, e enquanto falta tempo, sobram pessoas, pessoas que mesmo em meio à multidão só sentem solidão. E, pela solidão ser tão cruel, substituímos a presença de um amado por alguma coisa, objeto ou atividade. Relacionamos-nos com coisas, e substituímos as coisas pelas pessoas, e amamos cada vez mais as coisas e cada vez menos as pessoas. Quando não se tem tempo de atender a um convite de um amigo, mandamos algo que nos represente. É mais fácil dar as coisas do que dar a si mesmo... e assim, nos tornamos parecidos com máquinas.
Deus nos criou como seres que tem necessidade se relacionar. Deus se relaciona pessoalmente com o homem, mas o homem moderno não tem “tempo” para se relacionar com seu próximo.
Para nós, Cristãos, que temos a consciência de que fomos criados com a característica que Deus nos deu, de sermos seres "relacionáveis" porque somos feito à sua imagem e semelhança, a falta de desprender-se para dar tempo às pessoas nos rouba a identidade de seres formados a Imago Dei. A própria Trindade é um exemplo de relacionamento perfeito, Cristo com o próprio Pai e Espírito Santo.
Pessoas não são máquinas, pessoas não precisam de conserto. Pessoas precisam de relacionamentos. Não existe uma caixa de ferramentas para consertar uma pessoa. Elas não vêm com manual. Elas precisam ser conhecidas, desvendadas, acompanhadas, recebidas, ouvidas, amadas, tocadas... precisam se relacionar.
As pessoas clamam por ajuda, e tudo o que temos a dar é a promessa de uma lembrança em nossa oração, quando, na verdade, elas precisam de você, do seu tempo...
Jesus não apenas falava às pessoas, ele as ouvia, as tocava, olhava em seus olhos e as tratava como seres únicos.
“Em nossos dias falta-nos a sensibilidade que houve em Cristo, que uma mulher ao tocá-lo despertou sua atenção em meio à multidão que o espremia. Ele mandou parar tudo para dar atenção a ela. Falta-nos sensibilidade para gastarmos nosso tempo em relacionamentos com pessoas discriminadas em nossa cidade, que não tem ninguém para trocar idéia, para abrir o coração.”
O descaso destrói os relacionamentos e a solidão mata as pessoas. *

Acho que nossa maior luta é não se deixar moldar pela ordem "natural" das coisas. Temos que dizer a nós mesmos que precisamos preservar nossos olhos e o nosso coração para que nossa alma não se afunde na lama que a pós-modernidade, ou alta-modernidade, sorve.


Texto feito para o trabalho de sociologia depois de uma conversa com um amigo meu: Negão*

terça-feira, 15 de julho de 2008

Como Tu queres...


"Somente hoje, eu gostaria de ser aquilo que você quer que eu seja." *
Essa frase chamou-me a atenção hoje. Afinal, o que Tu queres que eu seja?
Penso que Deus me quer direito, andando reto, sempre pra frente, e não para trás; acertando, e não errando; construindo, e não derrubando; confiando, e não duvidando... E me pergunto, até mesmo em meio a um desespero sufocante, como posso ser sempre assim “direito” sendo que sou imperfeito e já nasci pecador? A resposta que tenho hoje é que não posso... Eu não posso... Assumo que sou mesmo um pecador imperfeito, arrogante e orgulhoso, que em mim não há nada do que se aproveite para o bem. Mas, também, é nesse ponto que encontro a resposta que me salva. Porque não é em mim, não sou eu a resposta, mas é em Ti, és Tu, meu Deus, a resposta. É o Senhor que me faz andar reto, que me faz acertar, que me ajuda a construir, e, é a tua fidelidade que me faz confiar. A Tua imagem reproduzida em mim reflete o bem que há em Ti. “Somente hoje gostaria de ser aquilo que você quer que eu seja”, e acho que para isso, eu preciso voltar à essência a cada instante, e a essência és Tu, meu salvador. Eu preciso assumir a cada manhã a minha posição de imperfeito e maltrapilho, assumir meu nome, a minha identidade, que sou barro, que sou pó, que sou o André... para daí, então, permitir que a sua boa mão me molde, dando-me um novo nome e uma nova identidade, e me conduza a novos planos que serão frutos de um relacionamento íntimo contigo, Pai.
Então, hoje, mais uma vez, volto à essência da minha vida, correndo para Ti, porque sei que é só em Ti que encontro as respostas, é só em Ti que me sinto seguro e é só em Ti que preencho o vazio da minha alma...
*Frase de Katia Piracicaba's, amiga que ganhei no seminário.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O Sofrer e o Cuidar


O sofrimento humano ou angústias jogam-nos de um lado para o outro em pensamentos, ações ou em um pedido silencioso de dentro da nossa alma direto para o nosso Deus. Em determinados momentos, não sabemos se precisamos de calmantes ou de orações. A dor atrapalha nossos sonos e atividades, pois ela percorre nossos pensamentos. Mas, “um sábio só se forma no sofrimento” porque é no sofrimento que temos a oportunidade de re-significarmos nossa vida. Viktor Frankl diz que "se a situação é boa, desfrute-a; se a situação é ruim, transforme-a; se a situação não pode ser transformada, transforme-se". Nessas horas temos que nos permitir que a transformação ocorra, de dentro para fora, e aceitar a situação como um tratamento de Deus.
A dor nos traz amadurecimento, reforça o nosso caráter, e mostra que não somos auto-suficientes para resolvermos os problemas que a vida nos traz, e, nos leva a um entendimento de que precisamos entregar e descansar em Deus, e pedir o aprendizado que Ele pode nos dar naquele momento. Ela nos leva à compaixão daqueles que sofrem o mesmo tipo de dor. Deixa o nosso coração mais sensível ao sofrimento do nosso próximo, nos aproximando assim, do cristianismo, onde devemos ajudar a carregar o fardo uns dos outros.
Como Jesus sofreu por amor, podemos ver o sofrimento como um aprendizado para ser usado em um gesto, futuro, de amor a Deus e para com o próximo. Devemos derramar o nosso coração e perguntarmos o que Ele tem a nos ensinar naquele momento. E, são nessas horas, que, se é possível amadurecer, e receber a esperança que vem do alto, que chega com a consciência do cuidado de Deus naquele exato momento. Como Karin Hellen Kepler, autora do livro Caminhos da graça, diz: “A experiência da dor ensinou-me que o caminho que sai de Jerusalém em direção à cruz é um caminho de amor, pois conduz a esperança da ressurreição.”